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O "Colóquio Internacional: Tendências contemporâneas da comunicação científica: desafios e perspectivas" foi promovido pela Diretoria de Divulgação Científica, orgão da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais. Foram debatidos os principais desafios da comunicação científica contemporânea tanto em ambientes corporativos quanto em redes entre países da América do Sul.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A valorização de cientistas e juízes em pesquisa de percepção pública e a exposição de juízes e cientistas no Jornal Nacional


A valorização de cientistas e juízes em pesquisa de percepção pública e a exposição de juízes e cientistas no Jornal Nacional

 

Rodrigo Bastos Cunha

Universidade Estadual de Campinas

rbcunha@unicamp.br

 

Em uma pesquisa de percepção pública de ciência e tecnologia na área de saúde, no estado de São Paulo, cujos resultados parciais estão sendo apresentados este ano (Vogt et al., 2012), uma das perguntas do questionário é sobre o valor que o entrevistado dá para determinadas profissões como professores, médicos, cientistas, jornalistas e juízes. Em relação a uma pesquisa anterior (Vogt et al, 2010), enquanto professores, médicos e jornalistas tiveram uma ligeira queda na admiração do público, mantendo-se ainda em um patamar alto de valorização, cientistas e juízes passaram a ser mais valorizados nos últimos cinco anos. Este trabalho apresenta a comparação dessas duas pesquisas e um levantamento de matérias com juízes e cientistas veiculadas no telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional, da Rede Globo, em todo o mês de fevereiro de 2012, o que inclui cinco edições antes e quatro edições depois da realização das entrevistas pelo Instituto Datafolha para a pesquisa de percepção pública.

            O questionário aplicado pelo Datafolha segue a metodologia de surveys internacionalmente consolidados como instrumentos para conhecer valores e atitudes do público e que permitem a comparabilidade com outros levantamentos, inclusive os realizados em outros países. A questão específica sobre valorização de profissões é um dos itens que compõem um elemento importante da cultura científica: a imagem que o público tem dos cientistas. Esse item é usado, por exemplo, em levantamentos sobre a percepção de jovens sobre a ciência e a carreira científica (Vogt et al., 2011). A comparação que será feita aqui é dos resultados dessa questão específica na atual pesquisa de percepção de ciência e tecnologia na área de saúde com o levantamento realizado em 2007 sobre ciência e tecnologia em geral. Ambas as pesquisas foram feitas em todo o estado de São Paulo. Para o atual levantamento, o Datafolha entrevistou, de 7 a 23 de fevereiro de 2012, 1.511 pessoas acima de 16 anos em 109 cidades do estado. A amostra foi estratificada segundo sexo, idade e classe socioeconômica.

            O nível de admiração dos entrevistados pela profissão de cientista no estado de São Paulo em 2007 (Vogt et al., 2010) ocupava o sexto lugar da lista, com 49,2% de muita admiração e 27,5% de alguma admiração (total de 76,7%). No somatório de muita e alguma admiração, lideravam a lista os professores (91,8%), os médicos (90,2%) e os jornalistas (84,8%). Os juízes ocupavam o décimo primeiro lugar dessa lista, com 31% de muita admiração e 28,8% de alguma admiração (total de 59,8%), atrás de artistas e advogados (61% e 62%, respectivamente, no somatório de muita e alguma admiração).

Na pesquisa atual, de 2012, os juízes passaram a ser mais valorizados que os artistas e os advogados, ficando em sétimo lugar na lista. No somatório das respostas “valoriza muito” e “valoriza”, os juízes ficaram com 68% e tanto artistas quanto advogados ficaram com 53%. No interior do estado, os advogados são mais valorizados (57%). As mulheres paulistas valorizam mais os juízes (73%) e os advogados (56%) do que os homens (61% e 50%, respectivamente). A faixa de idade que mais valoriza os juízes e os advogados é a de jovens entre 16 e 24 anos (74% e 67%, respectivamente). Em relação ao nível de escolaridade, os juízes são mais valorizados por aqueles que têm nível superior (72%). A valorização dos juízes também é maior na classe A (82%), mas nas classes C/D, a valorização dos juízes também é acima da média geral (73%). A classe A também é a que mais valoriza os advogados (67%).

            Juízes e advogados são profissões que aparecem em outro levantamento recente sobre percepção social da justiça (Sá e Silva, 2011). Essa pesquisa incluiu uma questão na qual os entrevistados eram solicitados a dizer como avaliavam o trabalho de juízes, promotores de justiça, defensores públicos, advogados, polícia civil e polícia federal: se “muito mal”, “mal”, “regular”, “bem” ou “muito bem”, em uma escala de 0 a 4. O segmentos mais bem avaliados foram a Polícia Federal e os promotores, que alcançaram 2,20, seguidos dos juízes, que ficaram com 2,14, acima do ponto médio da escala. Os defensores públicos ficaram com 2,04; os advogados, com 1,96; e a polícia civil, com 1,81. De acordo com Sá e Silva, o desempenho da Polícia Federal “tem caráter intuitivo, tendo em vista o alto grau de exposição, geralmente com conotação positiva, de que desfrutaram as operações da Polícia Federal na mídia no passado recente”. Embora esse levantamento específico sobre o sistema judiciário como um todo aponte os juízes em uma posição intermediária em comparação com a avaliação de outros atores da justiça, essa relação entre a exposição na mídia e a percepção do público é um dos fatores (certamente não o único) envolvidos no crescimento da valorização de juízes nas pesquisas de percepção pública que comparam outras profissões com a de cientistas.

No levantamento atual (Vogt et al., 2012), professores e médicos continuam no topo da lista das profissões mais valorizadas, com 88% e 87%, respectivamente. Os jornalistas ficaram com 80% e foram ultrapassados por cientistas, que ficaram com 83% na soma de muita e alguma valorização. Os segmentos que mais valorizam os cientistas no estado de São Paulo são as pessoas com nível superior (93%) e as da classe A (100%). É importante destacar que essa unanimidade na opinião das pessoas da classe socioeconômica mais favorecida foi a única encontrada entre todas as profissões e áreas de atuação e todos os segmentos da amostra.

            Para verificar a exposição na mídia dessas duas áreas de atuação que tiveram um crescimento na valorização pelo público paulista – de 6,3% para cientistas e 8,2% para juízes, entre 2007 e 2012 –, fez-se um levantamento das matérias veiculadas nas edições de 1 a 28 de fevereiro do Jornal Nacional, da Rede Globo. Trata-se apenas de um dado indicativo, já que não engloba outros veículos televisivos e tampouco veículos impressos, sendo, no entanto, significativo, em termos de alcance da exposição, por se tratar do telejornal de maior audiência do país e pelo fato de a televisão ser um veículo que atinge um público bem maior do que os veículos impressos.

 

Tabela 1: Matérias em que aparecem juízes no JN entre 1 e 28/2/2012

título
data
duração
Supremo começa a julgar liminar que reduziu poderes de investigação do CNJ
1/fev
1m57s
Presidente do STF nega crise na Justiça
1/fev
3m00s
STF julga limitação dos poderes de investigação do CNJ
2/fev
4m31s
STF decide que CNJ poderá investigar magistrados
3/fev
4m06s
STF conclui julgamento sobre os poderes do Conselho Nacional de Justiça
8/fev
2m34s
STF decide que marido que agredir a mulher pode ser processado e julgado mesmo sem queixa
9/fev
0m39s
Presidente do STF retira Joaquim Barbosa da relatoria de ação sobre CNJ
10/fev
0m30s
Supremo Tribunal Federal suspende pela terceira vez julgamento da Lei da Ficha Limpa
15/fev
2m25s
Candidatos sem ficha limpa serão barrados pela Justiça Eleitoral
17/fev
2m18s
STF arquiva inquérito por corrupção eleitoral contra o deputado Valdemar Costa Neto
17/fev
0m19s
AGU pede autorização para CNJ retomar investigação da evolução patrimonial de magistrados
20/fev
0m26s
STF aceita denúncia contra senador João Ribeiro, do PR
23/fev
0m30s
STJ considera ilegal que plano de saúde de SP limite gastos com internação de paciente
23/fev
0m38s
STF prorroga prazo para ex-Secretário Geral do PT cumprir acordo judicial
24/fev
0m55s

 

            A tabela acima mostra que em todas as semanas de fevereiro foram veiculadas matérias com juízes dos tribunais superiores, a maioria delas sobre o Supremo Tribunal Federal. A mais alta corte do país tem ganhado espaço crescente na mídia, após a inauguração da TV Justiça em 2002, com transmissão ao vivo de sessões importantes, entre elas as que envolvem questões científicas polêmicas, como a que liberou, em 2008, o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas.

 

Tabela 2: Matérias em que aparecem cientistas no JN entre 1 e 28/2/2012

Título
data
duração
Cientistas americanos descobrem que Mal de Alzheimer pode evoluir como uma infecção
2/fev
1m55s
Biólogos socorrem animais debilitados no litoral da Holanda
3/fev
2m14s
Cientistas americanos anunciam avanço no combate ao Mal de Alzheimer
9/fev
1m37s
Pesquisa mostra diferenças de sintomas do infarto em homens e mulheres
22/fev
1m45s
Cientistas investigam objetos misteriosos que caíram do céu no Maranhão
24/fev
1m55s

 

            Com exposição bem menor que os juízes, os cientistas apareceram no Jornal Nacional em três das quatro semanas de fevereiro. Três das cinco matérias são sobre doenças, duas delas sobre o Mal de Alzheimer. A pesquisa de percepção pública (Vogt et al., 2012) aponta que 84% dos paulistas têm interesse por temas de medicina e saúde. O dado que mais chama a atenção é que quatro matérias são sobre cientistas estrangeiros, três dos Estados Unidos, e uma da Holanda, e a única matéria que trata de pesquisa no Brasil mostra cientistas brasileiros e norte-americanos trabalhando juntos. A pesquisa de percepção pública (Vogt et al., 2012) mostra que apesar da alta valorização de cientistas (83%), apenas 45% dos paulistas consideram que o Brasil se destaca em pesquisa científica, o que tem relação com o grau de exposição na mídia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Sá e Silva, F. “Percepção Social da Justiça”. In: Sistema de Indicadores de Percepção Social. Brasília: Ipea: 2011.

 

Vogt et al. “Percepção Pública da C&T em Saúde”. In: Anais das IX Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnologia. Ciudad de México: Uaem, 2012.

 

Vogt et al. “Hábitos informativos sobre ciência e tecnologia”. In: Polino, Carmelo (compilador). Los estudiantes y la ciência: encuesta a jóvenes iberoamericanos. Buenos Aires: OEI, 2011.

 

Vogt et al. “Percepção Pública da Ciência e da Tecnologia”. In: Livro de Indicadores de CT&I. São Paulo: Fapesp, 2010.

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