Rodrigo
Bastos Cunha
Universidade
Estadual de Campinas
rbcunha@unicamp.br
Em uma pesquisa de percepção pública de ciência e tecnologia na área de
saúde, no estado de São Paulo, cujos resultados parciais estão sendo
apresentados este ano (Vogt et al., 2012), uma das perguntas do questionário é
sobre o valor que o entrevistado dá para determinadas profissões como
professores, médicos, cientistas, jornalistas e juízes. Em relação a uma
pesquisa anterior (Vogt et al, 2010), enquanto professores, médicos e
jornalistas tiveram uma ligeira queda na admiração do público, mantendo-se
ainda em um patamar alto de valorização, cientistas e juízes passaram a ser
mais valorizados nos últimos cinco anos. Este trabalho apresenta a comparação
dessas duas pesquisas e um levantamento de matérias com juízes e cientistas
veiculadas no telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional, da Rede
Globo, em todo o mês de fevereiro de 2012, o que inclui cinco edições antes e
quatro edições depois da realização das entrevistas pelo Instituto Datafolha
para a pesquisa de percepção pública.
O questionário aplicado pelo
Datafolha segue a metodologia de surveys
internacionalmente consolidados como instrumentos para conhecer valores e
atitudes do público e que permitem a comparabilidade com outros levantamentos,
inclusive os realizados em outros países. A questão específica sobre valorização
de profissões é um dos itens que compõem um elemento importante da cultura
científica: a imagem que o público tem dos cientistas. Esse item é usado, por
exemplo, em levantamentos sobre a percepção de jovens sobre a ciência e a
carreira científica (Vogt et al., 2011). A comparação que será feita aqui é dos
resultados dessa questão específica na atual pesquisa de percepção de ciência e
tecnologia na área de saúde com o levantamento realizado em 2007 sobre ciência
e tecnologia em geral.
Ambas as pesquisas foram feitas em todo o estado de São
Paulo. Para o atual levantamento, o Datafolha entrevistou, de 7 a 23 de fevereiro de 2012,
1.511 pessoas acima de 16 anos em 109 cidades do estado. A amostra foi
estratificada segundo sexo, idade e classe socioeconômica.
O nível de admiração dos
entrevistados pela profissão de cientista no estado de São Paulo em 2007 (Vogt
et al., 2010) ocupava o sexto lugar da lista, com 49,2% de muita admiração e
27,5% de alguma admiração (total de 76,7%). No somatório de muita e alguma
admiração, lideravam a lista os professores (91,8%), os médicos (90,2%) e os
jornalistas (84,8%). Os juízes ocupavam o décimo primeiro lugar dessa lista,
com 31% de muita admiração e 28,8% de alguma admiração (total de 59,8%), atrás
de artistas e advogados (61% e 62%, respectivamente, no somatório de muita e
alguma admiração).
Na pesquisa atual, de 2012, os juízes passaram a ser mais valorizados que
os artistas e os advogados, ficando em sétimo lugar na lista. No somatório das
respostas “valoriza muito” e “valoriza”, os juízes ficaram com 68% e tanto
artistas quanto advogados ficaram com 53%. No interior do estado, os advogados
são mais valorizados (57%). As mulheres paulistas valorizam mais os juízes
(73%) e os advogados (56%) do que os homens (61% e 50%, respectivamente). A faixa
de idade que mais valoriza os juízes e os advogados é a de jovens entre 16 e 24
anos (74% e 67%, respectivamente). Em relação ao nível de escolaridade, os
juízes são mais valorizados por aqueles que têm nível superior (72%). A
valorização dos juízes também é maior na classe A (82%), mas nas classes C/D, a
valorização dos juízes também é acima da média geral (73%). A classe A também é
a que mais valoriza os advogados (67%).
Juízes e advogados são profissões
que aparecem em outro levantamento recente sobre percepção social da justiça
(Sá e Silva, 2011). Essa pesquisa incluiu uma questão na qual os entrevistados
eram solicitados a dizer como avaliavam o trabalho de juízes, promotores de
justiça, defensores públicos, advogados, polícia civil e polícia federal: se
“muito mal”, “mal”, “regular”, “bem” ou “muito bem”, em uma escala de 0 a 4. O segmentos mais bem
avaliados foram a Polícia Federal e os promotores, que alcançaram 2,20,
seguidos dos juízes, que ficaram com 2,14, acima do ponto médio da escala. Os
defensores públicos ficaram com 2,04; os advogados, com 1,96; e a polícia
civil, com 1,81. De acordo com Sá e Silva, o desempenho da Polícia Federal “tem
caráter intuitivo, tendo em vista o alto grau de exposição, geralmente com
conotação positiva, de que desfrutaram as operações da Polícia Federal na mídia
no passado recente”. Embora esse levantamento específico sobre o sistema
judiciário como um todo aponte os juízes em uma posição intermediária em comparação
com a avaliação de outros atores da justiça, essa relação entre a exposição na
mídia e a percepção do público é um dos fatores (certamente não o único)
envolvidos no crescimento da valorização de juízes nas pesquisas de percepção
pública que comparam outras profissões com a de cientistas.
No levantamento atual (Vogt et al., 2012), professores e médicos
continuam no topo da lista das profissões mais valorizadas, com 88% e 87%,
respectivamente. Os jornalistas ficaram com 80% e foram ultrapassados por
cientistas, que ficaram com 83% na soma de muita e alguma valorização. Os
segmentos que mais valorizam os cientistas no estado de São Paulo são as
pessoas com nível superior (93%) e as da classe A (100%). É importante destacar
que essa unanimidade na opinião das pessoas da classe socioeconômica mais
favorecida foi a única encontrada entre todas as profissões e áreas de atuação
e todos os segmentos da amostra.
Para verificar a exposição na mídia
dessas duas áreas de atuação que tiveram um crescimento na valorização pelo
público paulista – de 6,3% para cientistas e 8,2% para juízes, entre 2007 e 2012
–, fez-se um levantamento das matérias veiculadas nas edições de 1 a 28 de fevereiro do Jornal
Nacional, da Rede Globo. Trata-se apenas de um dado indicativo, já que não
engloba outros veículos televisivos e tampouco veículos impressos, sendo, no
entanto, significativo, em termos de alcance da exposição, por se tratar do
telejornal de maior audiência do país e pelo fato de a televisão ser um veículo
que atinge um público bem maior do que os veículos impressos.
Tabela 1: Matérias em que aparecem juízes no JN entre 1 e 28/2/2012
|
título
|
data
|
duração
|
|
Supremo começa a julgar
liminar que reduziu poderes de investigação do CNJ
|
1/fev
|
1m57s
|
|
Presidente do STF nega
crise na Justiça
|
1/fev
|
3m00s
|
|
STF julga limitação dos
poderes de investigação do CNJ
|
2/fev
|
4m31s
|
|
STF decide que CNJ poderá
investigar magistrados
|
3/fev
|
4m06s
|
|
STF conclui julgamento
sobre os poderes do Conselho Nacional de Justiça
|
8/fev
|
2m34s
|
|
STF decide que marido que
agredir a mulher pode ser processado e julgado mesmo sem queixa
|
9/fev
|
0m39s
|
|
Presidente do STF retira
Joaquim Barbosa da relatoria de ação sobre CNJ
|
10/fev
|
0m30s
|
|
Supremo Tribunal Federal
suspende pela terceira vez julgamento da Lei da Ficha Limpa
|
15/fev
|
2m25s
|
|
Candidatos sem ficha limpa
serão barrados pela Justiça Eleitoral
|
17/fev
|
2m18s
|
|
STF arquiva inquérito por
corrupção eleitoral contra o deputado Valdemar Costa Neto
|
17/fev
|
0m19s
|
|
AGU pede autorização para
CNJ retomar investigação da evolução patrimonial de magistrados
|
20/fev
|
0m26s
|
|
STF aceita denúncia contra
senador João Ribeiro, do PR
|
23/fev
|
0m30s
|
|
STJ considera ilegal que
plano de saúde de SP limite gastos com internação de paciente
|
23/fev
|
0m38s
|
|
STF prorroga prazo para
ex-Secretário Geral do PT cumprir acordo judicial
|
24/fev
|
0m55s
|
A tabela acima mostra que em todas
as semanas de fevereiro foram veiculadas matérias com juízes dos tribunais
superiores, a maioria delas sobre o Supremo Tribunal Federal. A mais alta corte
do país tem ganhado espaço crescente na mídia, após a inauguração da TV Justiça
em 2002, com transmissão ao vivo de sessões importantes, entre elas as que
envolvem questões científicas polêmicas, como a que liberou, em 2008, o uso de
células-tronco embrionárias em pesquisas.
Tabela 2: Matérias em que aparecem cientistas no JN entre 1 e 28/2/2012
|
Título
|
data
|
duração
|
|
Cientistas americanos
descobrem que Mal de Alzheimer pode evoluir como uma infecção
|
2/fev
|
1m55s
|
|
Biólogos socorrem animais
debilitados no litoral da Holanda
|
3/fev
|
2m14s
|
|
Cientistas americanos
anunciam avanço no combate ao Mal de Alzheimer
|
9/fev
|
1m37s
|
|
Pesquisa mostra diferenças
de sintomas do infarto em homens e mulheres
|
22/fev
|
1m45s
|
|
Cientistas investigam
objetos misteriosos que caíram do céu no Maranhão
|
24/fev
|
1m55s
|
Com exposição bem menor que os
juízes, os cientistas apareceram no Jornal Nacional em três das quatro semanas
de fevereiro. Três das cinco matérias são sobre doenças, duas delas sobre o Mal
de Alzheimer. A pesquisa de percepção pública (Vogt et al., 2012) aponta que
84% dos paulistas têm interesse por temas de medicina e saúde. O dado que mais
chama a atenção é que quatro matérias são sobre cientistas estrangeiros, três
dos Estados Unidos, e uma da Holanda, e a única matéria que trata de pesquisa
no Brasil mostra cientistas brasileiros e norte-americanos trabalhando juntos.
A pesquisa de percepção pública (Vogt et al., 2012) mostra que apesar da alta
valorização de cientistas (83%), apenas 45% dos paulistas consideram que o
Brasil se destaca em pesquisa científica, o que tem relação com o grau de
exposição na mídia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Sá e Silva, F. “Percepção Social da
Justiça”. In: Sistema de Indicadores de
Percepção Social. Brasília: Ipea: 2011.
Vogt et al. “Percepção Pública da
C&T em Saúde”. In: Anais das IX Jornadas Latinoamericanas de Estudios
Sociales de la Ciencia
y la Tecnologia. Ciudad
de México: Uaem, 2012.
Vogt et al. “Hábitos informativos
sobre ciência e tecnologia”. In: Polino, Carmelo (compilador). Los estudiantes y la ciência: encuesta a
jóvenes iberoamericanos. Buenos Aires: OEI, 2011.
Vogt et al. “Percepção Pública da
Ciência e da Tecnologia”. In: Livro de
Indicadores de CT&I. São Paulo: Fapesp, 2010.
Nenhum comentário:
Postar um comentário