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O "Colóquio Internacional: Tendências contemporâneas da comunicação científica: desafios e perspectivas" foi promovido pela Diretoria de Divulgação Científica, orgão da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais. Foram debatidos os principais desafios da comunicação científica contemporânea tanto em ambientes corporativos quanto em redes entre países da América do Sul.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A relação entre arte e ciência como interface de divulgação científica


 

 

Luiz Antonio Garcia Diniz1, Adilson J A de Oliveira2

1Pós-doutorado Pro-reitoria de extensão/UFSCar-LABI- Universidade Federal de São Carlos – Campus São Carlos, SP. Apoio FAPESP - http://www.labi.ufscar.br  luizdiniz953@yahoo.fr

2Professor Associado do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos – Campus São Carlos - e adilson@df.ufscar.br



 

 

O discurso de divulgação científica é uma tradução do discurso de origem ou, torna-se pela prática discurso específico com uma retórica que lhe é própria?

 

A divulgação científica é uma prática que tem se intensificado nos últimos anos e, acreditamos que a ocorrência dessa intensificação esteja vinculada principalmente às facilidades de acesso à informação, seja por meio da Internet, mídia impressa, radiofônica, televisiva, entre outras, seja pelas iniciativas realizadas pelos próprios cientistas, os quais consideram essa atividade como parte do compromisso com o sociedade. Contudo, com essas iniciativas, vêm surgindo diferentes discursos e abordagens, resultado não somente do direcionamento da divulgação tendo em vista públicos diversos (crianças, adolescentes, adultos), mas também das várias metodologias de disseminação. Uma reflexão de como esses discursos são construídos é de fundamental importância para avaliarmos e compreendermos o alcance das atividades de divulgação científica.

  Nesse sentido, entendemos como Daniel Jacobi explicita (1983), que o discurso científico é comunicação de especialistas destinada a outros especialistas e, tal discurso recorre a uma língua” particular. Dessa forma, a linguagem que a ciência utiliza se torna algumas vezes hermética, a ponto que até mesmo pesquisadores de uma área, se não atuam especificamente em um determinado tema, tem dificuldade compreender artigos publicados nos periódicos científicos.

Assim, segundo o autor, temos basicamente três vertentes para analisar o discurso da divulgação científica:

1-) Abordagem semiótica: que pressupõe um movimento de ida e volta no intertexto, o qual se revela como uma rede tecida entre o discurso científico, sua reformulação e reutilização. Nessa trilha, podemos ler” o discurso sem, necessariamente, nos atermos ao discurso-fonte, ou aos traços que ele deixa nos intertextos. Caberia, desse modo, ao leitor, a construção de seu próprio discurso a partir dos enunciados produzidos pela dinâmica própria ao texto. Fato que ocorre em todo objeto que se dá a ler.

2-) Diálogo  entre o cientista e o divulgador: Nesse caso, o divulgador cumpriria o papel de mediador. Um dos pressupostos é a suposta inabilidade do cientista de falar uma linguagem compreensível e, assim, a mediação é necessária. Seria uma tradução do hermetismo do discurso científico para que ele seja lido pelo homem comum. Assim, a linguagem utilizada seria o resultado da mediação apontada acima. É conhecida pelo termo de terceiro homem” e defendida pelos teóricos clássicos da mídia de massa. Considerando a mídia como o terceiro homem” no papel de intermediário de um discurso entre a  ciência dura” e o público comum, o homem da rua.

3-) Retórica da vulgarização: Esse ponto de vista é uma vertente emergente que  considera a divulgação científica como um discurso a parte, formulado e publicado em revistas especializados. No interior dessa vertente abrem-se abordagens distintas, como por exemplo, a semiológica, a sociológica e a psicosociológica. Todas têm em comum a crítica à divulgação científica, considerando que na verdade tais práticas não atingem seu objetivo por conta dos efeitos imprevisíveis e, finalmente, acreditam que elas enganam o público e reforça as desigualdades sociais. No entanto, todos estão de acordo que a difusão é realizada por atores específicos que reformulam e parafraseiam o discurso científico. Há enfim, uma tipologia construída que constitui em separar o discurso de divulgação científica do didático e do enciclopédico.

 

Arte e divulgação científica

 

A partir das estruturas das abordagens brevemente apresentadas sobre a  divulgação científica discutiremos uma via empregada pelo Laboratório Aberto de Interatividade - LAbI/UFSCar que se baseia no desenvolvimento de instalações interativas, que utiliza principalmente recursos da arte eletrônica para desenvolver instalações que abordam determinados conceitos científicos de forma transdisciplinar.

O objetivo é uma definição da metodologia empregada na construção dos objetos artísticos com a finalidade de que - no campo do diálogo estabelecido entre a instalação e o observador -, seja enfatizada a relação e não simplesmente uma possível reação às interatividades propostas pelos artefatos disponibilizados ao interagente potencial. Para tanto, nos amparamos na reflexão greimasiana conceitualizada pelas isotopias temáticas e figurativas, para que a passagem entre os conceitos mais abstratos apresentados pelas instalações sejam reconhecíveis e apreendidos pelo interagente. Ressalta-se que aqui aparece, de um lado, a estratégia de construção das instalações e, de outro, a análise decorrente, ou seja, a compreensão dos discursos como simulacros discursivos tendo como objetivo a criação da passagem do sensível para  o inteligível. Tal reflexão será embasada a partir do ponto de vista de Eric Landowski (1992), o qual retoma o trabalho de Greimas (2008) no que se refere a um desdobramento dos estudos semióticos levando em conta o sensível, elemento presente nas leituras e significações dos objetos artísticos, como peça fundamental no processo das ressignificações operadas pelo interagente.

Assim, o conceito de simulacros discursivos utilizados pelas instalações de divulgação científica são estratégias para que o leitor seja levado pela narrativa para um campo ora confortável, ora impactante e hostil à compreensão mediata. Tal procedimento recorre a figuras como a metáfora, a sinonímia, a hipérbole e, vale enfatizar o uso  do paradoxo, o qual é amplamente utilizado para criar um espaço de suspensão, de interrogação sem resposta imediata e, procura, nesse sentido, levar o leitor a uma reflexão sobre o ponto em que o paradoxo se inscreve no discurso até então passível de ser compreendido.

Como exemplo, desses procedimentos,  exemplificaremos com a experiência da Instalação Um Novo Tempo,  versão apresentada na Estação Cultura em São Carlos- SP. Segue abaixo alguns dos principais elementos de sua construção, de sua metodologia e da análise dos resultados.

 

Um Novo Tempo: elementos construtivos da instalação

Estrutura construtiva e dispositivos interativos propostos

Tela háptica e Relógio

            Relógio: busca retratar a irreversibilidade do tempo.

            Tela Háptica, cuja opção de seis vídeos, mostra um fenômeno na sua temporalidade acelerada ou extremamente lenta.

Dispositivo com Joystick: projeção espacial de tempos diferidos.

            Passado, presente e futuro: o mesmo fenômeno em três perspectivas diferentes.

Máquina do Tempo: navegação na temporalidade midiática ou histórica

             Máquina do tempo: proposta de historicização do tempo, mais especificamente, o tempo na mídia relacionado aos acontecimentos históricos.


A relação que estabelecemos na construção das instalações interativas vai no movimento do gráfico abaixo:

 


 

Assim, na construção das instalações interativas, recorremos à uma construção híbrida com traços das conhecidas abordagens de divulgação científica, ressaltamos porém, um aspecto que foi pouco aprofundado: a recorrência de textos não verbais nos objetos artísticos destinados a esse fim, como por exemplo, as instalações interativas, objeto de pesquisa do LAbI, as quais são construídas por textos, intertextos e uma tessitura textual que abrange discursos imagéticos, sonoros, táteis, verbais ou, uma hibridação de linguagens que foge ao conhecido discurso jornalístico que encontramos na mídia. Acreditamos que essa vertente contribua à construção metodológica de divulgação científica que está sendo construída no Brasil.


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