Luiz Antonio Garcia Diniz1, Adilson J A de
Oliveira2
1Pós-doutorado Pro-reitoria de extensão/UFSCar-LABI-
Universidade Federal de São Carlos – Campus São Carlos, SP. Apoio FAPESP - http://www.labi.ufscar.br luizdiniz953@yahoo.fr
2Professor Associado do Departamento de Física da
Universidade Federal de São Carlos – Campus São Carlos - e adilson@df.ufscar.br
O discurso de divulgação científica é
uma tradução do discurso de origem ou, torna-se pela prática discurso
específico com uma retórica que lhe é própria?
A divulgação científica é uma prática
que tem se intensificado nos últimos anos e, acreditamos que a ocorrência dessa
intensificação esteja vinculada principalmente às facilidades de acesso à
informação, seja por meio da Internet, mídia impressa, radiofônica, televisiva,
entre outras, seja pelas iniciativas realizadas pelos próprios cientistas, os
quais consideram essa atividade como parte do compromisso com o sociedade.
Contudo, com essas iniciativas, vêm surgindo diferentes discursos e abordagens,
resultado não somente do direcionamento da divulgação tendo em vista públicos
diversos (crianças, adolescentes, adultos), mas também das várias metodologias
de disseminação. Uma reflexão de como esses discursos são construídos é de
fundamental importância para avaliarmos e compreendermos o alcance das
atividades de divulgação científica.
Nesse sentido, entendemos como Daniel Jacobi explicita (1983), que o
discurso científico é comunicação de especialistas destinada a outros
especialistas e, tal discurso recorre a uma “língua” particular. Dessa forma, a linguagem que a
ciência utiliza se torna algumas vezes hermética, a ponto que até mesmo
pesquisadores de uma área, se não atuam especificamente em um determinado tema,
tem dificuldade compreender artigos publicados nos periódicos científicos.
Assim, segundo o autor, temos
basicamente três vertentes para analisar o discurso da divulgação científica:
1-) Abordagem
semiótica: que pressupõe um
movimento de ida e volta no intertexto, o qual se revela como uma rede tecida
entre o discurso científico, sua reformulação e reutilização. Nessa trilha,
podemos “ler” o discurso sem, necessariamente,
nos atermos ao discurso-fonte, ou aos traços que ele deixa nos intertextos.
Caberia, desse modo, ao leitor, a construção de seu próprio discurso a partir
dos enunciados produzidos pela dinâmica própria ao texto. Fato que ocorre em
todo objeto que se dá a ler.
2-) Diálogo entre
o cientista e o divulgador: Nesse caso, o divulgador cumpriria o papel de
mediador. Um dos pressupostos é a suposta inabilidade do cientista de falar uma
linguagem compreensível e, assim, a mediação é necessária. Seria uma tradução
do hermetismo do discurso científico para que ele seja lido pelo homem comum.
Assim, a linguagem utilizada seria o resultado da mediação apontada acima. É
conhecida pelo termo de “terceiro homem” e defendida pelos teóricos
clássicos da mídia de massa. Considerando a mídia como o “terceiro homem” no papel de
intermediário de um discurso entre a “ciência dura” e o público comum, o homem
da rua.
3-) Retórica
da vulgarização: Esse ponto de vista
é uma vertente emergente que considera a
divulgação científica como um discurso a parte, formulado e publicado em
revistas especializados. No interior dessa vertente abrem-se abordagens
distintas, como por exemplo, a semiológica, a sociológica e a psicosociológica.
Todas têm em comum a crítica à divulgação científica, considerando que na
verdade tais práticas não atingem seu objetivo por conta dos efeitos
imprevisíveis e, finalmente, acreditam que elas enganam o público e reforça as
desigualdades sociais. No entanto, todos estão de acordo que a difusão é
realizada por atores específicos que reformulam e parafraseiam o discurso
científico. Há enfim, uma tipologia construída que constitui em separar o
discurso de divulgação científica do didático e do enciclopédico.
Arte e
divulgação científica
A partir das estruturas das abordagens brevemente
apresentadas sobre a divulgação
científica discutiremos uma via empregada pelo Laboratório Aberto de
Interatividade - LAbI/UFSCar que se baseia no desenvolvimento de instalações
interativas, que utiliza principalmente recursos da arte eletrônica para
desenvolver instalações que abordam determinados conceitos científicos de forma
transdisciplinar.
O objetivo é uma definição da
metodologia empregada na construção dos objetos artísticos com a finalidade de
que - no campo do diálogo estabelecido entre a instalação e o observador -,
seja enfatizada a relação e não simplesmente uma possível reação às
interatividades propostas pelos artefatos disponibilizados ao interagente
potencial. Para tanto, nos amparamos na reflexão greimasiana conceitualizada
pelas isotopias temáticas e figurativas, para que a passagem entre os conceitos
mais abstratos apresentados pelas instalações sejam reconhecíveis e apreendidos
pelo interagente. Ressalta-se que aqui aparece, de um lado, a estratégia de
construção das instalações e, de outro, a análise decorrente, ou seja, a
compreensão dos discursos como simulacros discursivos tendo como objetivo a
criação da passagem do sensível para o
inteligível. Tal reflexão será embasada a partir do ponto de vista de Eric
Landowski (1992), o qual retoma o trabalho de Greimas (2008) no que se refere a
um desdobramento dos estudos semióticos levando em conta o sensível, elemento
presente nas leituras e significações dos objetos artísticos, como peça
fundamental no processo das ressignificações operadas pelo interagente.
Assim, o conceito de simulacros
discursivos utilizados pelas instalações de divulgação científica são
estratégias para que o leitor seja levado pela narrativa para um campo ora
confortável, ora impactante e hostil à compreensão mediata. Tal procedimento
recorre a figuras como a metáfora, a sinonímia, a hipérbole e, vale enfatizar o
uso do paradoxo, o qual é amplamente
utilizado para criar um espaço de suspensão, de interrogação sem resposta
imediata e, procura, nesse sentido, levar o leitor a uma reflexão sobre o ponto
em que o paradoxo se inscreve no discurso até então passível de ser
compreendido.
Como exemplo, desses procedimentos, exemplificaremos com a experiência da Instalação
Um Novo Tempo, versão apresentada na Estação Cultura em São
Carlos- SP. Segue abaixo alguns dos principais elementos de sua construção, de
sua metodologia e da análise dos resultados.
Um Novo Tempo: elementos construtivos da instalação
Estrutura construtiva e dispositivos interativos
propostos
Tela háptica e Relógio
Relógio: busca retratar a irreversibilidade do tempo.
Tela Háptica, cuja opção de seis vídeos, mostra um
fenômeno na sua temporalidade acelerada ou extremamente lenta.
Dispositivo com Joystick: projeção espacial de tempos
diferidos.
Passado, presente e futuro: o mesmo fenômeno em três perspectivas
diferentes.
Máquina do Tempo: navegação na temporalidade midiática ou
histórica
Máquina do tempo:
proposta de historicização do tempo, mais especificamente, o tempo na mídia
relacionado aos acontecimentos históricos.
A relação que estabelecemos na
construção das instalações interativas vai no movimento do gráfico abaixo:
Assim, na construção das instalações
interativas, recorremos à uma construção híbrida com traços das conhecidas
abordagens de divulgação científica, ressaltamos porém, um aspecto que foi pouco
aprofundado: a recorrência de textos não verbais nos objetos artísticos
destinados a esse fim, como por exemplo, as instalações interativas, objeto de
pesquisa do LAbI, as quais são construídas por textos, intertextos e uma
tessitura textual que abrange discursos imagéticos, sonoros, táteis, verbais
ou, uma hibridação de linguagens que foge ao conhecido discurso jornalístico
que encontramos na mídia. Acreditamos que essa vertente contribua à construção
metodológica de divulgação científica que está sendo construída no Brasil.
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