Jéssica Norberto Rocha
Teachers’
Scientific Culture
Resumo
O professor é um
formador de opinião de grande influência na construção do imaginário de seus
alunos, principalmente das crianças, e possui um papel relevante na formação de
cidadão críticos e na promoção da tomada de decisão para assuntos de Ciência,
Tecnologia e Inovação. O presente estudo tem como objetivo identificar e
analisar a cultura científica dos professores da Educação Básica de Minas
Gerais, à luz dos modelos de pesquisa em Percepção Pública da Ciência, tendo em
vista o processo de formação desses professores no curso Pedagogia a distância da Universidade Aberta do Brasil /UFMG. A
partir deste estudo espera-se abrir caminho para futuras investigações,
programas de divulgação científica e formação qualificada do professorado para
ensino de ciências no mundo contemporâneo.
Palavras-Chave: Educação, Percepção da Ciência,
Formação de Professores, Ensino a Distância.
Abstract
Teachers are great influence in the imagination of
their students, particularly children, and has an important role in the
formation of critical citizens and promoting decision-makers on matters of
Science, Technology and Innovation. This study aims to identify and analyze the
scientific culture of teachers of Basic Education of Minas Gerais, in the light
of Public Understanding of Science research models, focused on the process of
the Education Course from Universidade Aberta do Brasil/ UFMG (Open University
Brazil/UFMG). It is expected to encourage future research, outreach programs
and scientific training for teachers to be qualified to teach science in the
contemporary world.
Key words: Education, Public Understanding of Science, Distance
Education.
Para a educação de
qualquer pessoa no mundo contemporâneo, é fundamental a noção sobre o que
acontece em Ciência e Tecnologia (C&T), isto é, seus principais resultados,
seus métodos, usos, riscos e limitações, bem como, os interesses e
determinações que governam seus processos e aplicações. Ser um cidadão
alfabetizado cientificamente, no sentido cívico, é buscar informações,
analisar, compreender, reavaliar, criticar, expressar opiniões e argumentar
sobre questões de ciência e tecnologia relacionadas, especialmente, com a vida
cotidiana, o futuro próximo e imediato. Formar um cidadão crítico é permitir a
melhora da sua qualidade de vida.
Por esse motivo, uma
política educacional que vise a elevação da qualidade da Educação Básica aos
patamares necessários e desejáveis e que dê suporte a políticas nacionais de
desenvolvimento científico e tecnológico, precisa estar, também, articulada a
uma política nacional de ciência e tecnologia para a área de Educação.
O governo brasileiro
vem promovendo um grande esforço para estabelecer uma política de difusão e
popularização da ciência que possa responder às crescentes demandas da
população brasileira e diminuir a distância entre ciência e vida cotidiana. Nas
duas últimas décadas, houve uma expansão significativa de ações do governo
federal e dos estaduais por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT),
Secretarias de C&T e Fundações de Apoio à Pesquisa (FAPs), entre outros
organismos preocupados com a divulgação científica no país.
Como parte desta
política, foram criados centros e museus de ciência em diferentes regiões
brasileiras; incentivadas olimpíadas de Ciências, Matemática, História; cursos
para formação de professores de Ciências nas escolas do Ensino Básico,
Fundamental e Médio, entre outras ações.
No mesmo período verificou-se, também, a crescente publicação de livros,
revistas e websites; maior cobertura
de jornais sobre temas científicos; organização de conferências populares e
outros eventos que despertam o interesse em audiências diversificadas por todo
país.
Paralelamente
a essas iniciativas do governo, surgiram ações destinadas a elaborar
instrumentos para medir os níveis de percepção pública e de cultura científica
da sociedade apoiadas por instituições de ensino e pesquisa e gestão pública da
política científica. Tais pesquisas foram legitimadas como instrumento
para pesquisadores e profissionais da esfera pública conhecerem as principais
tendências de opinião e também do comportamento geral, constituindo-se, assim,
em um canal de conhecimento sobre valores e atitudes, além de aspectos
específicos sobre a C&T.
Os
estudos clássicos de Percepção Pública da Ciência – Public Understanding of Science (PUS) – são organizados de forma a
conhecer e determinar o grau de interesse pela informação
científico-tecnológica, as fontes de informação habitualmente utilizadas e a
valorização social da Ciência e Tecnologia. Apesar desses três eixos serem bem
definidos, vários estudos enfrentam desafios de avaliação e interpretação dos
dados coletados e também na definição dos conceitos de percepção pública da
ciência, de compreensão dos processos científicos e, em geral, da chamada
“cultura científica”.
O
modelo de déficit recebeu inúmeras críticas e foram desenvolvidos modelos
alternativos, com contextos de pesquisa diferentes e filiações epistemológicas
distintas. As críticas feitas são de que o modelo do déficit supõe que o
público é uma entidade passiva com falhas no conhecimento que devem ser
corrigidas. Além disso, estabelece que a informação científica flui em uma
única direção, dos cientistas até o público. Por isso, as novas iniciativas
insistiram na importância de se proceder a uma ação comunicativa que leve em
conta a complexidade do processo, pois, segundo elas, o aprimoramento da
cultura científica não implica uma via de mão única na transmissão do
conhecimento.
No
entanto, embora o modelo de déficit tenha sofrido tantas críticas durante os
últimos anos, ele ainda continua sendo o eixo norteador de pesquisas recentes
realizadas no Brasil e em vários outros países.
Em meados de 2001, por exemplo, a Organização dos Estados
Ibero-Americanos (OEI) e a Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e
Tecnologia (Ricyt) do Programa Iberoamericano Ciencia y Tecnologia para el
Desarrollo (Cyted), desenvolveram estudos na região objetivando analisar o
fenômenos implicados nos processos de percepção pública, cultura científica e
participação dos cidadãos nas sociedades modernas, tendo em vista a obtenção de
indicadores úteis para a tomada de decisões políticas. Elaboraram-se e financiaram-se
pesquisas nas cidades de Buenos Aires e parte do perímetro urbano da Grande
Buenos Aires (Argentina), Campinas (Brasil), Salamanca e Valladolid (Espanha) e
Montevidéu (Uruguai). (VOGT e POLINO, 2003)
Com
base no mesmo modelo, recentemente, em 2010, o Ministério de Ciência e
Tecnologia, com colaboração da UNESCO, realizou a pesquisa “Percepção Pública
da Ciência e Tecnologia no Brasil” com cerca de duas mil pessoas em várias
regiões do país. O objetivo principal do trabalho foi, por meio de questionários
com perguntas abertas e fechadas, fazer um levantamento do interesse, grau de
informação, atitudes, visões e conhecimento que os brasileiros têm da Ciência e
Tecnologia.
Diante do contexto
apresentado, apesar dos avanços registrados na área, o cenário da formação da
cultura científica brasileira ainda se mostra frágil e limitado, com amplas
parcelas da população sem acesso à educação científica e à informação
qualificada sobre C&T. Fragilidade e deficiência semelhantes também são
encontradas na educação científica formal, nas escolas. O ensino de Ciências,
em diferentes níveis, tem apresentado lacunas preocupantes, de acordo com
pesquisas nacionais e internacionais.
Diversas avaliações
mostram que o desempenho dos jovens brasileiros em ciências, na maioria das
vezes, está abaixo do desejado. Para ilustrar, mostramos o resultado do
Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) – avaliação
internacional padronizada, desenvolvida conjuntamente pelos países
participantes da OCDE, aplicada a alunos de 15 anos no ensino regular. O PISA
abrange os domínios de Leitura, Matemática e Ciências, não somente quanto ao
domínio curricular de cada, mas também quanto aos conhecimentos relevantes e às
habilidades necessárias à vida adulta.
Os resultados brasileiros em Ciências não são
satisfatórios quando comparados com o nível atingido por outros países. Em
2000, de 43 países avaliados, o Brasil ficou na 42º colocação com 375 pontos,
acima apenas do Peru; em 2003, de 41 países avaliados, o Brasil também ficou
apenas uma colocação acima do último, Tunísia, apesar de subirmos para 390
pontos. Em 2006, em 57 países, ficamos na posição 52 acima de Colômbia,
Tunísia, Azerbaijão, Catar, Quirguistão, mantendo a média de 390 pontos da
avaliação anterior. Por fim, em 2009, dos 65 países participantes, ficamos na
posição 53 com 405 pontos. (OECD, 2000, 2003, 2006, 2009).
Considerando
os problemas apontados sobre o ensino de Ciências no Brasil e a baixa
compreensão da área pelo público em geral, atestado por diferentes pesquisas de
percepção pública, o desafio ainda é grande. Para melhorar a situação do ensino
de ciências no Brasil é necessário ampliar o interesse pelos estudos
científicos e formar uma sociedade imersa na cultura científica. Assim, deve-se
investir na formação qualificada e continuada do professorado para que o
despertar da curiosidade e do interesse pela C&T seja feito desde a
Educação Básica de seus alunos.
Um
dos fatores que afeta negativamente a qualidade da Educação Básica está
relacionado à qualificação do profissional que leciona. A grande maioria dos
professores da Educação Básica é mal remunerada, trabalha em condições muito
desfavoráveis; em geral, teve uma formação inicial insatisfatória, tanto nos
conteúdos como no campo didático-pedagógico, e tem poucas oportunidades de
continuar sua formação no decorrer de sua vida profissional.
Como
argumenta Freitas (2007), pode-se considerar que muitos dos problemas atuais na
Educação Básica também são devidos à configuração do modelo de expansão do Ensino
Superior implementado na década de 1990, nas reformas do Estado e subordinado
às recomendações dos organismos internacionais. Para a formação de professores
no Brasil, foram criados Institutos Superiores de Educação (IES) e houve a
diversificação e flexibilização da oferta dos cursos para atender a crescente
demanda pela formação superior.
Nesse
contexto, a institucionalização da formação superior em programas de educação a distância, de formação continuada,
aliada à utilização de novas
tecnologias, é hoje o centro da política de formação em serviço. Além
disso, a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB), em 2006,
institucionalizou os programas de formação de professores a distância como uma
política pública de formação. O novo sistema educacional foi criado com o
objetivo de expandir e interiorizar a
oferta de cursos e programas de educação superior públicos, a distância,
oferecendo, prioritariamente, cursos de licenciatura e de formação inicial
e continuada de professores da educação básica, cursos superiores para
capacitação de dirigentes, gestores e trabalhadores em educação básica.
Em
razão da flexibilização do ensino e da grande quantidade de profissionais
formados, surge a necessidade de se analisar a qualidade, a forma e as
características como a formação de professores está sendo implementada,
especialmente para a área de Ciências. Quando pensamos na percepção do
professor sobre a ciência, também temos que considerar que ela envolve não só
suas concepções imaginárias, mas também o processo sócio histórico e ideológico
de sua formação. Sua percepção, a forma como valoriza, se interessa e age em
relação às questões de C&T se explicitam no seu discurso em sala de aula e
nas suas práticas pedagógicas.
A
criação do imaginário científico da criança é muito influenciada pelo discurso
do professor em sala de aula, principalmente, pela forma como este relata,
aborda e discute temas ligados à C&T, pelo material didático utilizado e
pelo valor que dá às atividades fora da sala de aula, como visitas a museus,
jardins botânicos e feiras de ciências. O que um professor, na posição de
autoridade diz, tem impacto e conotação diferentes do que o que é dito na
indústria cultural em geral. Tal posição supõe/antecipa uma determinada imagem
social na qual a voz do saber da ciência não pode ser ignorada. Dessa forma, a
imagem que crianças têm de um cientista, por exemplo, não surge do acaso. Ela
se constrói a partir de processos que ligam discursos e instituições, isto é, a
partir de práticas sociais que compreendem as relações de poder, o simbólico e
o imaginário. (ORLANDI, 2001)
Para
complementar, de acordo com Massarani (2005, p.7), os livros didáticos, uma das
principais fontes de informação científica no Brasil, muitas vezes veiculam
erros conceituais graves e apresentam a ciência como algo distante da vida
cotidiana. Em outros meios de informação, como a TV e as histórias em
quadrinhos, geralmente, o cientista é um homem, tido como louco, descuidado,
cujo trabalho é inventar coisas desarticuladas da realidade. Por esse motivo, o
papel da educação formal e, principalmente, dos professores, formadores de
opinião, é essencial para ajudar a criança a pensar criticamente sobre
informações recebidas e construir seu imaginário.
Vários
trabalhos sobre as concepções de ciências, a formação do professor e suas
prática pedagógicas já foram desenvolvidos e publicados. No entanto, poucos têm
sido abordados à luz dos modelos de pesquisa em Percepção Pública da Ciência,
que se constitui na proposta metodológica desta pesquisa, agregando a isso o
processo de formação de professores de Ciências para a Educação Básica em
cursos à distância.
A
amostragem do presente estudo é constituída por alunos do curso Pedagogia da Universidade Aberta do
Brasil /UFMG (UAB/UFMG) – modalidade à distância que objetiva formar profissionais em nível de graduação
plena para atuar na Educação Básica e nos anos iniciais do ensino fundamental.
O curso foi oferecido pela primeira vez em 2008 em nove
pólos em Minas Gerais e possui,
atualmente, 376 alunos. Em 2011, ele está sendo reofertado em cinco pólos e
conta com 250 alunos. Muitas vezes o curso é procurado por professores já em
exercício, que desejam se atualizar e buscam uma formação de melhor qualidade.
Hoje, 96 dos 376 alunos do curso iniciado em 2008 já são professores em
exercício, lecionando nas redes pública e particular de seus municípios. No
curso de 2011, 50% das vagas de cada pólo foram preenchidas por professores em
exercício e 50% para a comunidade em geral que busca uma formação inicial em Pedagogia.
A opção por trabalhar a partir de um universo de 250
cursistas matriculados no curso de Pedagogia UAB/UFMG deve-se à possibilidade
de compor, na amostra, uma variedade de perfis de professores que refletem as
diferentes realidades do estado de Minas Gerais. A inserção no corpus da pesquisa de cursistas
dos cinco municípios/pólos do curso de 2011 – Araçuaí, Campos Gerais, Formiga,
Governador Valadares e Teófilo Otoni – permite a participação representativa de
professores em exercício e em formação inicial de, aproximadamente, 40
municípios do estado.
Primeiro momento: a percepção da
ciência no Curso de Pedagogia UAB/UFMG
No
primeiro momento, desenvolvemos a pesquisa por meio de um questionário com
perguntas fechadas e abertas aplicados em todos os participantes do processo de
formação de professores do curso de Pedagogia UAB/UFMG: coordenação, tutores a
distância e presencial, professores formadores e 250 cursistas. Em tal
questionário levantamos dados sobre a Percepção da Ciência e Tecnologia no Brasil,
atitudes e visões sobre Ciência e Tecnologia, avaliação e conhecimento sobre
Ciência e Tecnologia e as práticas pedagógicas dos cursistas que já são
professores efetivos.
Estágio atual: a cultura científica
dos professores e suas práticas pedagógicas
A
análise tradicionalmente efetuada por meio de questionários não revela toda a
complexidade e as dimensões das representações sobre C&T. Por esse motivo,
no presente momento, a pesquisa está sendo realizada por meio de entrevistas
semi-estruturadas em profundidade com uma amostragem de 10% do cursistas de
Pedagogia UAB/UFMG. Considerando que temos em cada um dos cinco pólos 25
cursistas em formação inicial e 25 cursistas professores em exercício, estão
sendo entrevistados 3 em formação inicial e 3 em exercício. Assim, teremos 6
cursistas por pólo, totalizando 30 na amostragem geral, representando,
portanto, cerca de 10% do universo total.
Esta
etapa objetiva considerar os aspectos ativos no processo de cognição para a
construção de sentido, da negociação das mensagens, da motivação e das
conotações emotivas, tratando a cultura científica como um processo dinâmico. A
partir das entrevistas, espera-se coletar dados em maior profundidade sobre a
sua formação, a recepção e participação dos assuntos atuais da área científica
e sua relação com a sociedade, as atitudes e valorização da ciência, as
práticas pedagógicas e alguns aspectos da recepção de seus alunos.
Terceiro momento: o panorama e suas
repercussões
Com
base na análise dos dados obtidos nas etapas anteriores, o terceiro momento tem
como objetivo identificar e analisar os pontos que evidenciem como a percepção
da ciência pelos tutores, professores, coordenadores e dos próprios cursistas
influencia os discursos e práticas pedagógicas dos professores da Educação
Básica cursistas do Pedagogia UAB/UFMG. Embora o objetivo central deste
trabalho seja identificar e analisar a cultura científica e o processo de
formação dos professores da Educação Básica, é importante analisar, também, a
formação e a recepção de dois outros níveis de contato, seus
professores/tutores no curso de Pedagogia UAB/UFMG e de seus alunos na
atividade profissional.
Espera-se,
com os resultados a serem alcançados com este trabalho, que possamos abrir
caminho para elaboração de instrumentos que permitam comparação com resultados
de pesquisas nacionais e internacionais e que novos elementos sejam incluídos
na definição de políticas públicas para programas de formação de professores no
ensino à distância e em divulgação científica e ensino de C&T para o mundo
contemporâneo.
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