Isabel Cristina de Oliveira – Centro Universitário UNA, Belo Horizonte, MG –
ico@ufmg.br
Já é fato, a importância que vem sendo dada pelo Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação ao tema da popularização da C&T. Isto pode ser comprovado em
documentos, propostas e planos que são elaborados por este Ministério, onde fica claro
que esta importância relaciona-se ao desenvolvimento econômico e social do país.
Entretanto, o formato de comunicação científica que se apresenta tem sido
baseado numa perspectiva transmissiva, ou seja, daquele que produz o conhecimento
para outros que não dominam aquele conhecimento. A popularização da ciência e da
tecnologia vem sendo permeada pela ideia de se traduzir o que é feito nos laboratórios,
nos institutos de pesquisa para um público, denominado ‘leigo’, que não
compreende
ciência e tecnologia muito bem. Isso implica numa proposta de simplificar a
informação, de forma que ela
se torne acessível. Essa lógica excluiria o processo da
ciência e a comunicação seria apenas sobre o resultado ou produto.
Neste formato, torna-se mais difícil a participação ativa das pessoas nas
definições políticas sobre os rumos da Ciência e Tecnologia, uma vez que o contato
com estas áreas se dá apenas por meio de conceitos mais superficiais e por meio dos
produtos (ou resultados) gerados por elas. É importante ressaltar que entre os próprios
cientistas, este tipo de popularização da ciência e tecnologia também pode gerar lacunas
e informações insuficientes, pois as áreas do conhecimento são várias. Assim, o biólogo
é leigo (e não par) em relação ao filósofo; o físico é leigo (e não par) em relação ao
sociólogo etc. Na verdade, ao refletirmos sobre a forma como é concebida a
popularização da ciência e da tecnologia nas orientações e estratégias públicas, percebese
um desconcerto na comunicação da ciência.
Assim, este projeto de pesquisa parte do desejo de que, na atualidade, uma nova
prática seja implantada, quando se pensa a comunicação científica para a sociedade
como um todo, levantando-se questões sobre como a ciência deve se dar a ver e qual é a
percepção pública da comunicação que vem sendo feita.
Para a realização deste projeto, propõe-se uma pesquisa quantitativa e qualitativa
nos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia
(INCTs/MCT) que estão sediados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Há, atualmente, 122 INCTs. Em Minas Gerais existem 13 e, desses, oito estão na
UFMG
1. Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) integram um
Programa do Ministério da Ciência e Tecnologia voltado para a articulação dos
melhores grupos de pesquisa em áreas de fronteira da ciência e em áreas estratégicas
para o desenvolvimento sustentável do país. Dentre suas ações, os INCTs “devem ainda
estabelecer programas que contribuam para a melhoria do ensino de ciências e a difusão
da ciência para o cidadão comum”.
A opção por pesquisar os INCTs tem como base o Documento de Orientação
Aprovado pelo Comitê de Coordenação desses Institutos, em 2008, o qual considera que
cada Instituto deve ter um programa bem definido, com metas
quantitativas e qualitativas, compreendendo três missões: pesquisa,
formação de recursos humanos, transferência de conhecimentos para a
sociedade (MCT-CNPq, 2008, p. 5).
Para fazer a transferência de conhecimento para a sociedade, enfatiza-se que
devem ser utilizados outros instrumentos além da publicação científica. Vai além e diz:
“deve ter um programa ambicioso de educação em ciência e difusão de conhecimento,
conduzido por seus pesquisadores e pelos bolsistas a ele vinculados, focalizado no
fortalecimento do ensino médio e na educação científica da população em geral (MCTCNPq,
2008, p. 6)”.
Pensando nisto, há de se explicitar o acesso à informação e sua conexão com a
divulgação científica. Os autores Reis, Silva e Massensini (2011) no texto “Informação
e cidadania: conceitos e saberes necessários à ação” escrevem que
obter/ter informação é uma prática social e implica em uma atitude e
ação do sujeito, visando responder seus questionamentos e indagações
a fim de se situar no mundo, podendo, por seu posicionamento,
contribuir para manter ou produzir mudança no contexto da sociedade
(REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 17).
Mais à frente, no mesmo texto, esses autores qualificam a informação agregando
o termo
social e explicam:
1
O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCTV) tem sua sede no Centro de Pesquisas
René Rachou - Fiocruz Minas.
vale colocar que esta nomeação – informação social – significa que a
compreendemos como um produto social, resultado das relações entre
os homens em um contexto histórico-político e cultural, fato que a faz
refletir os interesses, as contradições, a ideologia e os limite históricos
da sociedade. [...]
[...] a informação constitui um processo importante para as diferentes
situações da sociedade, notadamente na educação e no processo de
produção do conhecimento. Porém, ela por si só não realiza o trabalho
que deve ser exercido pelo sujeito, ou seja, apreendê-la, analisá-la e
através de sua reflexão transformá-la em conhecimento para o
exercício de sua ação. Desta forma, se a informação é compreendida
conforme acima indicado, vale prosseguir trazendo para esta discussão
o conceito de cidadania (REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 17-
18).
Esses autores explicitam cidadania a partir da recuperação da origem do termo
esclarecem que o termo vem do latim
civitas, que significa “conjunto de seus habitantes,
os “civis”; cidadão” (REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 18). Eles ressaltam que o
termo
cidadão “ganha conotação positiva incorporando-se ao linguajar corrente e se
institui em 1988 a Constituição Cidadã, que inova e amplia de forma significativa o
âmbito dos direitos”. (2011, p. 20). Entretanto, fazem uma observação que deve ser
considerada em qualquer contexto social:
Ressalva-se, porém, que tal processo não se realiza por doação, mas
por intermédio da consciência, articulação e reivindicação de nossos
direitos. Dentro deste prisma, informação e cidadania são aportes
importantes para o exercício da ação (REIS; SILVA; MASSENSINI,
2011, p. 20).
Todavia, considera-se que a informação por si só não leva à ação preconizada
por Reis, Silva, e Massensini. Ela (a informação) só se torna um
instrumento para o
exercício da ação por meio da comunicação.
Yurij Castelfranchi (2010), reportando-se a Thomas e Durant (1987), Gregory e
Miller (1998) e outros pesquisadores, diz que “Uma boa comunicação da ciência e da
tecnologia traz vantagens para a nação como um todo, benefícios para os cidadãos e é
crucial também para a própria ciência e para os cientistas” (CASTELFRANCHI, 2010,
p. 13). Este autor lista algumas argumentações em favor da comunicação científica:
implicações econômicas, importância política, bom funcionamento da democracia e
para o bem do cidadão. Segundo Castelfranchi (2010),
Em suma, em muitas de tais argumentações está presente a ideia de
que comunicar a ciência
não é apenas uma obrigação para os
produtores de conhecimento, nem apenas um direito do cidadão,
mas uma necessidade
política, econômica, estratégica para o
funcionamento do capitalismo, para uma dinâmica democrática
saudável, para garantir a competitividade, para formar trabalhadores, e
assim por diante. Também é fácil demonstrar que, cada vez mais, os
policy-makers
, os empreendedores, os cientistas e os gestores estão
cientes de tais necessidades; é suficiente analisar textos de leis,
declarações, debates (CASTELFRANCHI, 2010, p. 15, grifos do
autor).
Assim, pode-se considerar que uma gestão social para a ciência e tecnologia
deve ter como fio condutor uma comunicação pública da ciência que permita não
apenas receber uma informação, mas que garanta uma participação efetiva que se
configure em entendimento, em compreensão sobre os conteúdos de C&T.
REFERÊNCIAS
CASTELFRANCHI, Yurij. Por que comunicar temas de ciência e tecnologia ao
público? (Muitas respostas óbvias... mais uma necessária). In: MASSARANI, Luísa
(Coord.).
Jornalismo e ciência: uma perspectiva ibero-americana. Rio de Janeiro:
Fiocruz/COC/Museu da Vida, 2010. p. 13-21.
Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Institutos Nacionais de Ciência e
Tecnologia (INCT). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq). Disponível em:
<http://www.cnpq.br/programas/inct/_apresentacao/apresentacao.html>. Acesso em:
nov. 2011.
__________________ Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Documento de
Orientação Aprovado pelo Comitê de Coordenação. 2008. Disponível em:
<http://www.cnpq.br/editais/ct/2008/docs/015_anexo.pdf>. Acesso em: nov. 2011.
REIS, Alceni Soares dos; SILVA, Alberth Sant’Ana da; MASSENSINI, Rogério Luís.
Informação e cidadania: conceitos e saberes necessários à ação. In: MOURA, Maria
Aparecida (Org.).
Cultura informacional e liderança comunitária: concepções e
práticas. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
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