Quem sou eu

Belo Horizonte
O "Colóquio Internacional: Tendências contemporâneas da comunicação científica: desafios e perspectivas" foi promovido pela Diretoria de Divulgação Científica, orgão da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais. Foram debatidos os principais desafios da comunicação científica contemporânea tanto em ambientes corporativos quanto em redes entre países da América do Sul.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A CIÊNCIA TAL QUAL SE DÁ A VER OU A CIÊNCIA QUE QUEREMOS COMPREENDER ?


Isabel Cristina de Oliveira – Centro Universitário UNA, Belo Horizonte, MG –

ico@ufmg.br


Já é fato, a importância que vem sendo dada pelo Ministério da Ciência,

Tecnologia e Inovação ao tema da popularização da C&T. Isto pode ser comprovado em

documentos, propostas e planos que são elaborados por este Ministério, onde fica claro

que esta importância relaciona-se ao desenvolvimento econômico e social do país.

Entretanto, o formato de comunicação científica que se apresenta tem sido

baseado numa perspectiva transmissiva, ou seja, daquele que produz o conhecimento

para outros que não dominam aquele conhecimento. A popularização da ciência e da

tecnologia vem sendo permeada pela ideia de se traduzir o que é feito nos laboratórios,

nos institutos de pesquisa para um público, denominado ‘leigo’, que não
compreende

ciência e tecnologia muito bem. Isso implica numa proposta de simplificar a

informação, de forma que ela
se torne acessível. Essa lógica excluiria o processo da

ciência e a comunicação seria apenas sobre o resultado ou produto.

Neste formato, torna-se mais difícil a participação ativa das pessoas nas

definições políticas sobre os rumos da Ciência e Tecnologia, uma vez que o contato

com estas áreas se dá apenas por meio de conceitos mais superficiais e por meio dos

produtos (ou resultados) gerados por elas. É importante ressaltar que entre os próprios

cientistas, este tipo de popularização da ciência e tecnologia também pode gerar lacunas

e informações insuficientes, pois as áreas do conhecimento são várias. Assim, o biólogo

é leigo (e não par) em relação ao filósofo; o físico é leigo (e não par) em relação ao

sociólogo etc. Na verdade, ao refletirmos sobre a forma como é concebida a

popularização da ciência e da tecnologia nas orientações e estratégias públicas, percebese

um desconcerto na comunicação da ciência.

Assim, este projeto de pesquisa parte do desejo de que, na atualidade, uma nova

prática seja implantada, quando se pensa a comunicação científica para a sociedade

como um todo, levantando-se questões sobre como a ciência deve se dar a ver e qual é a

percepção pública da comunicação que vem sendo feita.

Para a realização deste projeto, propõe-se uma pesquisa quantitativa e qualitativa

nos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia

(INCTs/MCT) que estão sediados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Há, atualmente, 122 INCTs. Em Minas Gerais existem 13 e, desses, oito estão na

UFMG
1. Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) integram um

Programa do Ministério da Ciência e Tecnologia voltado para a articulação dos

melhores grupos de pesquisa em áreas de fronteira da ciência e em áreas estratégicas

para o desenvolvimento sustentável do país. Dentre suas ações, os INCTs “devem ainda

estabelecer programas que contribuam para a melhoria do ensino de ciências e a difusão

da ciência para o cidadão comum”.

A opção por pesquisar os INCTs tem como base o Documento de Orientação

Aprovado pelo Comitê de Coordenação desses Institutos, em 2008, o qual considera que

cada Instituto deve ter um programa bem definido, com metas

quantitativas e qualitativas, compreendendo três missões: pesquisa,

formação de recursos humanos, transferência de conhecimentos para a

sociedade (MCT-CNPq, 2008, p. 5).


Para fazer a transferência de conhecimento para a sociedade, enfatiza-se que

devem ser utilizados outros instrumentos além da publicação científica. Vai além e diz:

“deve ter um programa ambicioso de educação em ciência e difusão de conhecimento,

conduzido por seus pesquisadores e pelos bolsistas a ele vinculados, focalizado no

fortalecimento do ensino médio e na educação científica da população em geral (MCTCNPq,

2008, p. 6)”.

Pensando nisto, há de se explicitar o acesso à informação e sua conexão com a

divulgação científica. Os autores Reis, Silva e Massensini (2011) no texto “Informação

e cidadania: conceitos e saberes necessários à ação” escrevem que

obter/ter informação é uma prática social e implica em uma atitude e

ação do sujeito, visando responder seus questionamentos e indagações

a fim de se situar no mundo, podendo, por seu posicionamento,

contribuir para manter ou produzir mudança no contexto da sociedade

(REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 17).


Mais à frente, no mesmo texto, esses autores qualificam a informação agregando

o termo
social e explicam:

1

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCTV) tem sua sede no Centro de Pesquisas

René Rachou - Fiocruz Minas.


vale colocar que esta nomeação – informação social – significa que a

compreendemos como um produto social, resultado das relações entre

os homens em um contexto histórico-político e cultural, fato que a faz

refletir os interesses, as contradições, a ideologia e os limite históricos

da sociedade. [...]

[...] a informação constitui um processo importante para as diferentes

situações da sociedade, notadamente na educação e no processo de

produção do conhecimento. Porém, ela por si só não realiza o trabalho

que deve ser exercido pelo sujeito, ou seja, apreendê-la, analisá-la e

através de sua reflexão transformá-la em conhecimento para o

exercício de sua ação. Desta forma, se a informação é compreendida

conforme acima indicado, vale prosseguir trazendo para esta discussão

o conceito de cidadania (REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 17-

18).


Esses autores explicitam cidadania a partir da recuperação da origem do termo

esclarecem que o termo vem do latim
civitas, que significa “conjunto de seus habitantes,

os “civis”; cidadão” (REIS; SILVA; MASSENSINI, 2011, p. 18). Eles ressaltam que o

termo
cidadão “ganha conotação positiva incorporando-se ao linguajar corrente e se

institui em 1988 a Constituição Cidadã, que inova e amplia de forma significativa o

âmbito dos direitos”. (2011, p. 20). Entretanto, fazem uma observação que deve ser

considerada em qualquer contexto social:

Ressalva-se, porém, que tal processo não se realiza por doação, mas

por intermédio da consciência, articulação e reivindicação de nossos

direitos. Dentro deste prisma, informação e cidadania são aportes

importantes para o exercício da ação (REIS; SILVA; MASSENSINI,

2011, p. 20).


Todavia, considera-se que a informação por si só não leva à ação preconizada

por Reis, Silva, e Massensini. Ela (a informação) só se torna um
instrumento para o

exercício da ação por meio da comunicação.

Yurij Castelfranchi (2010), reportando-se a Thomas e Durant (1987), Gregory e

Miller (1998) e outros pesquisadores, diz que “Uma boa comunicação da ciência e da

tecnologia traz vantagens para a nação como um todo, benefícios para os cidadãos e é

crucial também para a própria ciência e para os cientistas” (CASTELFRANCHI, 2010,

p. 13). Este autor lista algumas argumentações em favor da comunicação científica:

implicações econômicas, importância política, bom funcionamento da democracia e

para o bem do cidadão. Segundo Castelfranchi (2010),

Em suma, em muitas de tais argumentações está presente a ideia de

que comunicar a ciência

não é apenas uma obrigação para os

produtores de conhecimento, nem apenas um direito do cidadão,

mas uma necessidade


política, econômica, estratégica para o

funcionamento do capitalismo, para uma dinâmica democrática

saudável, para garantir a competitividade, para formar trabalhadores, e

assim por diante. Também é fácil demonstrar que, cada vez mais, os


policy-makers


, os empreendedores, os cientistas e os gestores estão

cientes de tais necessidades; é suficiente analisar textos de leis,

declarações, debates (CASTELFRANCHI, 2010, p. 15, grifos do

autor).


Assim, pode-se considerar que uma gestão social para a ciência e tecnologia

deve ter como fio condutor uma comunicação pública da ciência que permita não

apenas receber uma informação, mas que garanta uma participação efetiva que se

configure em entendimento, em compreensão sobre os conteúdos de C&T.

REFERÊNCIAS

CASTELFRANCHI, Yurij. Por que comunicar temas de ciência e tecnologia ao

público? (Muitas respostas óbvias... mais uma necessária). In: MASSARANI, Luísa

(Coord.).
Jornalismo e ciência: uma perspectiva ibero-americana. Rio de Janeiro:

Fiocruz/COC/Museu da Vida, 2010. p. 13-21.

Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Institutos Nacionais de Ciência e

Tecnologia (INCT). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

(CNPq). Disponível em:

<http://www.cnpq.br/programas/inct/_apresentacao/apresentacao.html>. Acesso em:

nov. 2011.

__________________ Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Conselho

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Documento de

Orientação Aprovado pelo Comitê de Coordenação. 2008. Disponível em:

<http://www.cnpq.br/editais/ct/2008/docs/015_anexo.pdf>. Acesso em: nov. 2011.

REIS, Alceni Soares dos; SILVA, Alberth Sant’Ana da; MASSENSINI, Rogério Luís.

Informação e cidadania: conceitos e saberes necessários à ação. In: MOURA, Maria

Aparecida (Org.).
Cultura informacional e liderança comunitária: concepções e

práticas. Belo Horizonte: UFMG, 2011. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário