Antecipação de réplicas na
divulgação científica
Guilherme da Silva Lima guil.lima@yahoo.com.br
Marcelo Giordan giordan@fe.usp.br
Universidade de São Paulo – Faculdade de Educação
Introdução
Os
trabalhos centrados no discurso de divulgação científica (DDC) podem ter
diversos enfoques, que se estendem desde a compreensão de suas características
enquanto gênero discursivo (ZAMBONI, 2001; GUIMARÃES, 2001; GRILLO, 2008) até a
sua utilização e aproximação das esferas do ensino e da aprendizagem (ALBAGLI,
1996; MASSARANI et al 2002; GERMANO e KULESZA, 2007; DIAS e ALMEIDA, 2010).
Dentre
os diversos enfoques que podem ser tomados, buscamos realizar nossas análises
aproximando o DDC de suas relações dialógicas, focando especialmente a produção
e a compreensão do enunciado em materiais escritos.
No caso das produções escritas, os processos
de produção do enunciado e sua compreensão ocorrem num contexto singular, onde
os indivíduos que o compõe não apenas estão separados espacialmente como estão
também temporalmente. Essa peculiaridade distancia os contextos de produção,
compreensão e uso dos materiais de divulgação científica (DC).
Tal
distanciamento influencia diretamente na produção do DDC, exigindo do autor não
apenas a delimitação do destinatário do discurso, mas ao mesmo tempo do
universo simbólico e semântico no qual seu interlocutor está imerso.
A
delimitação do interlocutor requer movimentos de alteridade, nos quais o autor
pode externalizar o universo simbólico-semântico do interlocutor no enunciado, antecipando
réplicas; fenômeno que abordaremos neste trabalho.
Para
o estudo deste fenômeno fazemos uso da teoria da enunciação proposta pelo
círculo de Bakhtin e apresentamos aqui uma discussão teórica acompanhada de uma
análise para exemplificar a antecipação de réplica.
Bakhtin: dialogia e
compreensão
Para
a teoria da enunciação a dialogia é uma característica intrínseca a todo e
qualquer enunciado, é a orientação do enunciado perante o contexto da
comunicação social. Para Bakhtin (2009) a orientação dialógica condiciona o
enunciado a um elo da cadeia comunicativa, fazendo com que interaja com
palavras alheias, tanto com aquelas que já foram produzidas quanto com os enunciados
que ainda serão gerados.
Sendo
assim, o enunciado não é produzido em um sistema fechado, em que é possível
isolar características e contextos do objeto em questão. Muito pelo contrário, ele
é produzido em meio às múltiplas relações que interpenetram o objeto, os
discursos alheios e o discurso em processo. O enunciado tem em vista um objeto
já apreciado, portanto não está pautado exclusivamente em seu referente, mas
também nos enunciados sobre seu referente.
Além
disso, o enunciado é produzido na interação de indivíduos socialmente
organizados e sempre carrega consigo uma dimensão referente a transmissão de
algum conteúdo. Deste modo, a compreensão do enunciado passa a ter um papel
fundamental no processo de comunicação, já que o enunciado é produzido para que
alguém o compreenda.
A
compreensão, por sua vez, não é uma atividade passiva em que o interlocutor
apenas recebe a informação de um locutor. Aquele que lê ou ouve o enunciado não
somente decodifica as palavras de outro, como se posiciona em relação ao
enunciado e o completa, adicionando elementos de seu universo cultural. Sendo
assim, a compreensão de um enunciado carrega em seu interior uma réplica.
Abaixo
exemplificamos um caso em que as relações dialógicas conjuntamente ao estilo do
autor permitem a produção de um enunciado em que as réplicas do interlocutor
são antecipadas.
Análise
Apresentaremos
abaixo um fragmento que exemplifica o fenômeno que pontuamos. O texto foi
extraído do artigo Luzes e cores, publicado no mês de novembro de 2011, na
coluna Física sem mistério, alocada no sitio do Instituto Ciência Hoje.
Na verdade, as nuvens
são compostas por gotas de água de diferentes tamanhos, e não por vapor d’água,
como o senso comum costuma indicar. O vapor se condensa na forma de gotas em
torno de partículas de poeira, fumaça e sal, suficientemente leves para
permanecerem suspensas no ar. A grande maioria das gotas tem dimensões
microscópicas (da ordem de um milésimo de milímetro). (OLIVEIRA, 2011).
Claramente
podemos notar que o autor resgata ideias produzidas por outras esferas, no caso
a do senso comum, ao mesmo tempo em que deixa evidente que aquela posição não é
defendida por ele. Tal resgate é destinado ao interlocutor, isto é, o autor concebe
o entendimento que o interlocutor possivelmente tem do fenômeno, acredita que a
ideia “as nuvens são formadas por vapor d’água”, faz parte da compreensão, do
imaginário ou do universo simbólico do interlocutor.
Paralelamente,
a afirmação que o autor faz é, do ponto de vista semântico, suficiente por si
mesma “as nuvens são compostas por gotas
de água de diferentes tamanhos”, ela só carece de argumentos se
considerarmos que exista um contra-argumento que, por sua vez, só pode ser
proferido pelo interlocutor, ou seja, quando o autor expressa “e não por vapor d’água, como o senso comum
costuma indicar” está antecipando e externalizando uma possível réplica do
interlocutor, ao mesmo tempo em que a avalia.
Deste
modo, o autor antecipa uma réplica produzida pelo leitor presumido, ao mesmo
tempo em que nega sua veracidade fazendo permanecer um discurso monológico a
favor do conhecimento científico.
Considerações finais.
Apresentamos
um trabalho centrado nas relações dialógicas que envolvem a produção do discurso
de divulgação científica. Evidenciamos o caso da antecipação de réplicas como
uma relação dialógica particular e uma modalidade específica do DDC.
Devido
ao espaço disponível não podemos expor mais casos em que ocorre o fenômeno, mas
salientamos que tais características são frequentes no DDC especialmente quando os assuntos tratados são
próximos da realidade imediata e do cotidiano dos interlocutores presumidos.
Referências
ALBAGLI, S. Divulgação científica: informação
científica para a cidadania? Ciência da
Informação, Brasília, v. 25, n. 3, 1996.
BAKHTIN, M. Marxismo
e Filosofia da Linguagem. 9. ed. São Paulo: Hucitec, 2009.
DIAS, R. H. A. e ALMEIDA, M. J. P. M.. Especificidades
do jornalismo científico na leitura de textos de divulgação científica por
estudantes de licenciatura em física. Revista
Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 4, 2010.
GERMANO, M. G. e KULESZA, W. A. Popularização da
ciências: uma revisão conceitual. Caderno
Brasileiro de Ensino de Física. V. 24 n. 1, 2007.
GRILLO, S. V. C. Gêneros primários e gêneros
secundários no círculo de Bakhtin: implicações para a divulgação científica. Alfa, São Paulo, 52 (1), 2008.
GUIMARÃES, E. Expressão modalizadora no discurso de
divulgação científica. Educação e
Linguagem. n 5, 2001.
OLIVEIRA, A. Luzes e cores. In. Ciência hoje. Coluna: Física sem mistério. Disponível em:
cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/novos-deuses-no-firmamento.
Acesso: 04/05/2012.
MASSARANI, L. e MOREIRA, I. C. e BRITO, F. Ciência e Público - caminhos da divulgação
científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência, 2002.
ZAMBONI, L. M. S. Cientistas,
jornalistas e a divulgação científica: subjetividade e heterogeneidade no
discurso da divulgação científica. Campinas: Autores associados. 2001
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