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O "Colóquio Internacional: Tendências contemporâneas da comunicação científica: desafios e perspectivas" foi promovido pela Diretoria de Divulgação Científica, orgão da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais. Foram debatidos os principais desafios da comunicação científica contemporânea tanto em ambientes corporativos quanto em redes entre países da América do Sul.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Antecipação de réplicas na divulgação científica


 

Antecipação de réplicas na divulgação científica

Guilherme da Silva Lima guil.lima@yahoo.com.br

Marcelo Giordan giordan@fe.usp.br

Universidade de São Paulo – Faculdade de Educação

 

Introdução

Os trabalhos centrados no discurso de divulgação científica (DDC) podem ter diversos enfoques, que se estendem desde a compreensão de suas características enquanto gênero discursivo (ZAMBONI, 2001; GUIMARÃES, 2001; GRILLO, 2008) até a sua utilização e aproximação das esferas do ensino e da aprendizagem (ALBAGLI, 1996; MASSARANI et al 2002; GERMANO e KULESZA, 2007; DIAS e ALMEIDA, 2010).

Dentre os diversos enfoques que podem ser tomados, buscamos realizar nossas análises aproximando o DDC de suas relações dialógicas, focando especialmente a produção e a compreensão do enunciado em materiais escritos.

 No caso das produções escritas, os processos de produção do enunciado e sua compreensão ocorrem num contexto singular, onde os indivíduos que o compõe não apenas estão separados espacialmente como estão também temporalmente. Essa peculiaridade distancia os contextos de produção, compreensão e uso dos materiais de divulgação científica (DC).

Tal distanciamento influencia diretamente na produção do DDC, exigindo do autor não apenas a delimitação do destinatário do discurso, mas ao mesmo tempo do universo simbólico e semântico no qual seu interlocutor está imerso.

A delimitação do interlocutor requer movimentos de alteridade, nos quais o autor pode externalizar o universo simbólico-semântico do interlocutor no enunciado, antecipando réplicas; fenômeno que abordaremos neste trabalho.

Para o estudo deste fenômeno fazemos uso da teoria da enunciação proposta pelo círculo de Bakhtin e apresentamos aqui uma discussão teórica acompanhada de uma análise para exemplificar a antecipação de réplica.

Bakhtin: dialogia e compreensão

Para a teoria da enunciação a dialogia é uma característica intrínseca a todo e qualquer enunciado, é a orientação do enunciado perante o contexto da comunicação social. Para Bakhtin (2009) a orientação dialógica condiciona o enunciado a um elo da cadeia comunicativa, fazendo com que interaja com palavras alheias, tanto com aquelas que já foram produzidas quanto com os enunciados que ainda serão gerados.

Sendo assim, o enunciado não é produzido em um sistema fechado, em que é possível isolar características e contextos do objeto em questão. Muito pelo contrário, ele é produzido em meio às múltiplas relações que interpenetram o objeto, os discursos alheios e o discurso em processo. O enunciado tem em vista um objeto já apreciado, portanto não está pautado exclusivamente em seu referente, mas também nos enunciados sobre seu referente.

Além disso, o enunciado é produzido na interação de indivíduos socialmente organizados e sempre carrega consigo uma dimensão referente a transmissão de algum conteúdo. Deste modo, a compreensão do enunciado passa a ter um papel fundamental no processo de comunicação, já que o enunciado é produzido para que alguém o compreenda.

A compreensão, por sua vez, não é uma atividade passiva em que o interlocutor apenas recebe a informação de um locutor. Aquele que lê ou ouve o enunciado não somente decodifica as palavras de outro, como se posiciona em relação ao enunciado e o completa, adicionando elementos de seu universo cultural. Sendo assim, a compreensão de um enunciado carrega em seu interior uma réplica.

Abaixo exemplificamos um caso em que as relações dialógicas conjuntamente ao estilo do autor permitem a produção de um enunciado em que as réplicas do interlocutor são antecipadas.

 

Análise

Apresentaremos abaixo um fragmento que exemplifica o fenômeno que pontuamos. O texto foi extraído do artigo Luzes e cores, publicado no mês de novembro de 2011, na coluna Física sem mistério, alocada no sitio do Instituto Ciência Hoje.

Na verdade, as nuvens são compostas por gotas de água de diferentes tamanhos, e não por vapor d’água, como o senso comum costuma indicar. O vapor se condensa na forma de gotas em torno de partículas de poeira, fumaça e sal, suficientemente leves para permanecerem suspensas no ar. A grande maioria das gotas tem dimensões microscópicas (da ordem de um milésimo de milímetro). (OLIVEIRA, 2011).

Claramente podemos notar que o autor resgata ideias produzidas por outras esferas, no caso a do senso comum, ao mesmo tempo em que deixa evidente que aquela posição não é defendida por ele. Tal resgate é destinado ao interlocutor, isto é, o autor concebe o entendimento que o interlocutor possivelmente tem do fenômeno, acredita que a ideia “as nuvens são formadas por vapor d’água”, faz parte da compreensão, do imaginário ou do universo simbólico do interlocutor.

Paralelamente, a afirmação que o autor faz é, do ponto de vista semântico, suficiente por si mesma “as nuvens são compostas por gotas de água de diferentes tamanhos”, ela só carece de argumentos se considerarmos que exista um contra-argumento que, por sua vez, só pode ser proferido pelo interlocutor, ou seja, quando o autor expressa “e não por vapor d’água, como o senso comum costuma indicar” está antecipando e externalizando uma possível réplica do interlocutor, ao mesmo tempo em que a avalia.

Deste modo, o autor antecipa uma réplica produzida pelo leitor presumido, ao mesmo tempo em que nega sua veracidade fazendo permanecer um discurso monológico a favor do conhecimento científico.

 

Considerações finais.

Apresentamos um trabalho centrado nas relações dialógicas que envolvem a produção do discurso de divulgação científica. Evidenciamos o caso da antecipação de réplicas como uma relação dialógica particular e uma modalidade específica do DDC.

Devido ao espaço disponível não podemos expor mais casos em que ocorre o fenômeno, mas salientamos que tais características são frequentes no DDC especialmente quando os assuntos tratados são próximos da realidade imediata e do cotidiano dos interlocutores presumidos.

 

Referências

ALBAGLI, S. Divulgação científica: informação científica para a cidadania? Ciência da Informação, Brasília, v. 25, n. 3, 1996.

BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 9. ed. São Paulo: Hucitec, 2009.

DIAS, R. H. A. e ALMEIDA, M. J. P. M.. Especificidades do jornalismo científico na leitura de textos de divulgação científica por estudantes de licenciatura em física. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 4, 2010.

GERMANO, M. G. e KULESZA, W. A. Popularização da ciências: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de Ensino de Física. V. 24 n. 1, 2007.

GRILLO, S. V. C. Gêneros primários e gêneros secundários no círculo de Bakhtin: implicações para a divulgação científica. Alfa, São Paulo, 52 (1), 2008.

GUIMARÃES, E. Expressão modalizadora no discurso de divulgação científica. Educação e Linguagem. n 5, 2001.

OLIVEIRA, A. Luzes e cores. In. Ciência hoje. Coluna: Física sem mistério. Disponível em: cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/novos-deuses-no-firmamento. Acesso: 04/05/2012.

MASSARANI, L. e MOREIRA, I. C. e BRITO, F. Ciência e Público - caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência, 2002.

ZAMBONI, L. M. S. Cientistas, jornalistas e a divulgação científica: subjetividade e heterogeneidade no discurso da divulgação científica. Campinas: Autores associados. 2001

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